Choques geopolíticos evidenciam a importância da saúde do solo e do uso racional de insumos para a competitividade dos cafés do Brasil

A intensificação das tensões geopolíticas no Oriente Médio, em especial o conflito envolvendo o Irã em 2026, voltou a expor a elevada dependência do Brasil de fertilizantes importados e seus impactos diretos sobre o agronegócio. O cenário atual remete, em vários aspectos, ao observado em 2022, durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, mas com novas complexidades logísticas e pressões adicionais sobre os custos de produção agrícola.

Em linhas gerais, o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que utiliza, com dependência praticamente total da ureia, além de forte exposição a fosfatados e potássicos. O Oriente Médio, incluindo o Irã, responde por parcela relevante da oferta global de nitrogenados, sendo o país responsável por aproximadamente 11% das exportações mundiais de ureia. O risco de interrupções no Estreito de Ormuz e a retirada de ofertas por produtores da região pressionam preços internacionais, com reflexos imediatos no mercado brasileiro.
No caso específico do café, os efeitos
da alta dos fertilizantes se tornam
evidentes por meio da deterioração da
relação de troca entre sacas produzidas
e os principais insumos. De acordo com
relatório da Consultoria Agro do Itaú
BBA , divulgado em março de 2026, é
necessário um número maior de sacas
do grão para adquirir fertilizantes na
comparação com o ano anterior.
Segundo o levantamento, a relação de troca do café com o MAP fosfatado, que variava entre 2,5 e 3,5 sacas por tonelada em 2025, passou para 3,5 a 4,5 sacas em 2026. No caso da ureia, a relação avançou de 3 a 4 sacas para 4 a 5 sacas, enquanto o cloreto de potássio (KCl) passou de 2,5–3,5 para 3–4 sacas por tonelada. Esse movimento pressiona os custos de produção e evidencia a importância de estratégias voltadas ao uso mais eficiente dos adubos e à redução da exposição à volatilidade dos insumos importados.
Nesse contexto, o aproveitamento de resíduos gerados na propriedade segue como uma alternativa técnica e ambientalmente consistente, atuando de forma complementar à adubação mineral. A casca e a palha de café, provenientes do processamento via úmida e da etapa de beneficiamento, são geradas em grande volume nas regiões cafeeiras e representam uma importante fonte de matéria orgânica e nutrientes.
Quando aplicadas corretamente na lavoura, essas biomassas contribuem para o condicionamento do solo, promovendo melhorias em suas propriedades físicas, químicas e biológicas, além de favorecerem a liberação gradual de nutrientes. A casca de café fornece nitrogênio, fósforo e potássio, com teores médios em torno de 1,5% de N, 0,15% de P₂O₅ e 3,0% de K₂O, além de cálcio e magnésio.
Além do aporte nutricional, a palhada de café contribui para o aumento da retenção de umidade, da capacidade de troca de cátions (CTC), para a redução da temperatura do solo, o controle da erosão e a supressão física do crescimento de plantas invasoras, auxiliando na diminuição da necessidade de herbicidas sintéticos.
Estudos conduzidos¹ no Brasil indicam que a associação entre palha de café, esterco e adubação mineral resulta em ganhos superiores de produtividade e qualidade da bebida quando comparada à adubação exclusivamente química, com incrementos consistentes de produção em doses de 1,0; 2,0 e 4,0 kg de palha seca por cova.
O fortalecimento de sistemas produtivos mais resilientes também vem sendo impulsionado pela parceria entre o Cecafé e a Emater-MG, no âmbito do Projeto Construindo Solos Saudáveis. A iniciativa busca ampliar o acesso dos produtores a práticas regenerativas voltadas à melhoria da estrutura, da fertilidade e da biologia do solo.
As Unidades Demonstrativas implantadas em regiões como o Sul de Minas e o Cerrado Mineiro têm evidenciado benefícios associados ao uso de plantas de cobertura nas entrelinhas do cafeeiro, incluindo consórcios com espécies leguminosas. Entre os principais serviços ecossistêmicos observados estão a fixação biológica de nitrogênio, a ciclagem de nutrientes, o aumento do teor de matéria orgânica e da atividade biológica do solo, além da maior infiltração e retenção de água.
1 Evidências provenientes de ensaios de campo e trabalhos técnicos conduzidos no Brasil, entre eles estudos realizados no Centro Experimental de Café Eloy Carlos Heringer (Martins Soares MG) e apresentados no 2º Simpósio de Pesquisa dos Cafés do Brasil (Embrapa Café, 2001)

Essas práticas, quando adotadas com orientação técnica, não eliminam a necessidade de adubação mineral, mas contribuem para aumentar a eficiência do uso dos fertilizantes, melhorar a saúde do solo e fortalecer a resiliência do cafeeiro frente a períodos de estresse hídrico e eventos climáticos extremos.
A produção elevada de biomassa pelas plantas de cobertura também favorece o aumento do estoque de carbono no solo e o seu melhor condicionamento físico.
Em um cenário global marcado por instabilidade geopolítica, volatilidade nos custos de insumos e pressão crescente sobre a rentabilidade da produção agrícola, as práticas sustentáveis deixam de ser apenas uma agenda ambiental e se consolidam como instrumentos estratégicos de mitigação de riscos.
O fortalecimento da pesquisa cafeeira, o aproveitamento de resíduos do próprio sistema produtivo, o uso de plantas de cobertura e a construção de solos mais saudáveis contribuem para reduzir a exposição dos produtores a choques externos e ampliar a eficiência produtiva.
Ao avançar nessa agenda, a cafeicultura brasileira reforça sua capacidade de adaptação frente a crises internacionais e consolida um modelo de produção mais resiliente, tecnicamente consistente e alinhado às demandas de sustentabilidade dos mercados globais.
Marcos Matos
Diretor Geral do CECAFÉ
Silvia Pizzol
Diretora de Sustentabilidade do CECAFÉ
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