Cecafé e Emater‑MG fortalecem a adoção de práticas de agricultura regenerativa com o programa Construindo Solos Saudáveis

Em fevereiro, a Organização Internacional do Café (OIC) lançou a campanha “O Café é Parte da Solução”, evidenciando como o setor cafeeiro pode enfrentar desafios globais e impulsionar uma produção mais sustentável, resiliente e próspera por meio da colaboração.
O setor exportador de café do Brasil desempenha papel relevante nesse ambiente colaborativo. Ao longo de anos, e por meio de protocolos e programas dedicados, exportadores investem para ampliar capacitação, bem estar social e conservação de recursos naturais nas regiões cafeeiras, transformando o fornecimento sustentável em um vetor concreto de desenvolvimento local e de atendimento às exigências de compradores internacionais.
Entre os principais desafios do setor cafeeiro estão os efeitos das mudanças climáticas. O café produzido com boas práticas agrícolas é parte da solução para esse problema global e isso foi evidenciado nas pesquisas promovidas pela agenda de carbono do Cecafé, conduzidas pelo prof. Carlos Eduardo Cerri (ESALQ/USP) e o Imaflora.
Em Minas Gerais, a pesquisa quantificou que, com a adoção de boas práticas (aporte de matéria orgânica no solo, manutenção da entrelinha do cafeeiro coberta e preferência por fertilizantes organominerais), a cafeicultura retém 10,5 t CO2eq/ha no solo e nos cafezais ao ano a mais do que emite para a atmosfera.
E mais! Nesse cálculo não está incluído o benefício da conservação ambiental que existe nas propriedades de café brasileiras, únicas no mundo que destinam de 20% a 80% de sua área produtiva para a preservação da vegetação nativa dos diferentes biomas do Brasil. A pesquisa quantificou que, para cada hectare de café cultivado, há, em média, 183 t CO2eq estocadas na forma de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente (APP) ao ano.
No Espírito Santo, foram analisados diferentes cenários da produção do café conilon. Considerando a mudança de uso do solo de pastagem para a produção tradicional de café, o balanço é negativo em 3,01 t CO2eq/ha/ano e este valor salta para menos 8,24 tCO2eq/ha/ano na transição de pastagem para produção de conilon com práticas sustentáveis.
No cenário de alteração do manejo agrícola, partindo do cultivo tradicional para a atividade cafeeira com adoção de práticas mais conservacionistas, o conilon capixaba também registra balanço negativo de carbono, da ordem de menos 1,36 tonelada de CO2eq por hectare ao ano.
Além disso, foi aferido que, na média das propriedades avaliadas, para cada hectare de café cultivado, há 338,67 t CO2eq estocadas na forma de vegetação nativa preservada nas fazendas.
Para escalar uma prática‑chave identificada pelas pesquisas – a cobertura do solo nas entrelinhas do café –, o Cecafé estabeleceu parceria estratégica com a Emater‑MG no programa Construindo Solos Saudáveis. A colaboração fortalece a assistência técnica pública e acelera a adoção de práticas de agricultura regenerativa em áreas de café, com foco na estrutura, fertilidade e vida do solo.
Em 2026, essa colaboração segue avançando com a implementação de Unidades Demonstrativas (UDs) no Sul de Minas e no Cerrado Mineiro pelos exportadores associados (Cooxupé, EISA, Exportadora de Café Guaxupé, Louis Dreyfus Company Brasil, NKG Stockler e Sucafina Brasil). Nelas, são realizadas avaliações dos serviços ecossistêmicos resultantes dos cultivos de cobertura e sua divulgação via Dias de Campo aos cafeicultores das regiões alcançadas.
Os resultados apurados pelo Programa Construindo Solos Saudáveis – melhoria da infiltração e retenção de água, redução de compactação e erosão, ciclagem de nutrientes e fixação biológica de nitrogênio – reforçam que a prática é compatível com sistemas mecanizados e contribui para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e a redução da dependência de insumos externos.
Por exemplo, nos dias de campo tem sido demonstrado que plantas de cobertura de espécies da família Fabaceae, como feijão guandu e as crotalárias (C. juncea, C. spectabilis e C. ochroleuca), promovem a fixação biológica de nitrogênio. Por isso, produzem palhada com maior teor desse elemento químico, o que contribui para a redução da dependência de fertilizantes nitrogenados minerais e, consequentemente, torna o balanço de carbono da cafeicultura ainda mais negativo.
As gramíneas da família Poaceae, como a braquiária (Brachiaria ruziziensis) e o milheto, produzem muita matéria seca com alta relação C/N. Essa palhada de decomposição lenta permanece mais tempo na superfície, protege o solo e, em sistemas mecanizados, reduz a compactação causada pelo tráfego de máquinas. Além disso, o sistema radicular fasciculado e abundante dessas espécies melhora a agregação do solo e intensifica a ciclagem de nutrientes – especialmente potássio e boro –, diminuindo a dependência de insumos externos.
Nabo forrageiro e trigo‑mourisco são espécies de ciclo rápido e funções complementares no sistema produtivo. O nabo forrageiro, com raiz pivotante tuberosa, descompacta o solo, cria bioporos que aumentam a infiltração de água e facilitam o aprofundamento das raízes do cafeeiro; além disso, recicla nutrientes (especialmente fósforo e nitrogênio) das camadas mais profundas, diminuindo a necessidade de adubações minerais.

Já o trigo‑mourisco forma associações micorrízicas arbusculares que elevam a disponibilidade de fósforo e, por ter arranque rápido e dossel fechado, suprime plantas daninhas, reduzindo a pressão por herbicidas. Sua alta atratividade a inimigos naturais (como crisopídeos) favorece o controle biológico do bicho‑mineiro e pode reduzir o uso de inseticidas.
Em conjunto, essas espécies fortalecem os serviços ecológicos do sistema e reduzem a dependência de insumos externos, como fertilizantes e defensivos sintéticos.

Os mixes de plantas de cobertura, como o próprio nome sugere, são associações de duas ou mais espécies. Eles são apresentados como estratégia para integrar, em uma mesma área, os múltiplos serviços que cada espécie pode oferecer, combinando funções como produção de palhada, fixação de nitrogênio, reciclagem de nutrientes e cobertura rápida do solo, adaptando-se a diferentes janelas de plantio e objetivos produtivos.

Esses resultados evidenciados em campo comprovam que a união de ciência aplicada e colaboração público-privada para transferência de tecnologias e conhecimento entregam lavouras mais resilientes, solos vivos e balanços de carbono negativos — atributos que diferenciam os cafés do Brasil e demonstram que a cafeicultura é parte da solução no enfrentamento das mudanças climáticas.
Marcos Matos
Diretor Geral do CECAFÉ
Silvia Pizzol
Diretora de Sustentabilidade do CECAFÉ
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